11.7.09

Férias
再见!

10.7.09

Flores de Xangai

Bonito cartaz francês do filme, muito klimtiano

Flores de Xangai (海上花, 1998) é algo de único e precioso, um filme que nos inebria, quase hipnotiza, mas que a mestria com que é feito não conseguimos alcançar totalmente. Hou Hsiao Hsien compõe o filme em pequenas partes, planos-sequência onde a câmara vai quase sempre percorrendo o espaço e as personagens, mostrando-nos o que estão a fazer sem atribuir relevância particular a algo. Hou filma os interiores dos bordéis de luxo da Xangai de oitocentos parecendo usar apenas como iluminação lâmpadas da época, dando ao filme uma atmosfera de intimidade e, ao mesmo tempo, confinamento. Os dramas de algumas “flores” e dos seus patronos desenrolam-se com uma cadência que é tão aparentemente natural como completamente encenada: como se nos fosse dado a ver pedaços do quotidiano desse tempo e lugar sem que nos esqueçamos que estamos irremediavelmente distantes.

9.7.09

Informações

Na sequência dos recentes acontecimentos em Xinjiang, recomendo a leitura de “China’s ethnic tinderbox” (na BBC), esclarecedor artigo do Professor Dru Gladney, especialista em assuntos chineses e uigures.
E já agora vale a pena ler também este artigo sobre Rebiya Kadeer, “o rosto mais conhecido da resistência” uigur (no Público).

8.7.09

A Herança


E entre as páginas desse livro, eu entalara as tiras de papel nas quais Hu Ran havia escrito as mensagens que me enviara. VAI TER COMIGO AO PARQUE. ÀS 16.00 HORAS NO CAFÉ. A tinta já começara a esmaecer. O parque e talvez até mesmo o café poderiam ainda existir, algures do outro lado do mar, mas dava-me a sensação, ao recordar-me deles, que as minhas lembranças eram em tons sépia, como relíquias levadas, suave e implacavelmente, para o esquecimento (p. 225)

Em 2004 Lan Samantha Chang publicou A Herança (Inheritance), o seu primeiro romance. Por essa altura ela já era uma reputada professora e contista nos Estados Unidos, país onde nasceu em 1965, filha de imigrantes chineses.
O livro gira em torno de uma família de Hangzhou, decorrendo a acção desde os anos 20 aos anos 90 do século passado. O primeiro capítulo introduz-nos a personagem de Chanyi, uma senhora de Hangzhou que se suicida pelo desgosto de não conseguir ter filhos homens. As suas duas filhas, Junan e Yinan, são as figuras centrais do livro, estando a narração a cargo da filha mais velha de Junan, Hong, que recorda a história da sua família.
Junan casa com Li Ang, um soldado nacionalista que vai subir na hierarquia militar e do Kuomintang. A guerra sino-japonesa separa-os e Junan envia Yinan para junto do marido na capital chinesa durante a guerra, Chongqin, como forma de melhor o controlar. Contudo, Li Ang acaba por se apaixonar por Yinan e a traição tornar-se-á irreversível, pairando o destino trágico da mãe como um estranho prenúncio de desgraça na vida das duas irmãs.

Por um lado, Lan Samantha Chang constrói um interessante retrato de como a tumultuosa história da China durante o século XX marcou profundamente uma família. Nesse aspecto, A Herança ficciona a reconstituição do percurso de uma família separada pela guerra e pela guerra civil e forçada a seguir futuros distintos: ficar na China depois de 49 e submeter-se às represálias pela sua posição anterior ou partir para Taiwan e depois para os EUA, terra de oportunidades.
Por outro lado, a autora sabe retratar os dilemas íntimos das mulheres que atravessam a história e os dramas advenientes da sua condição feminina: a frágil Chanyi, a pragmática e orgulhosa Junan, a reservada Yinan, a empreendedora e compreensiva Mudan (ama das irmãs), a narradora dividida e comprometida com a memória e a sua irmã mais nova de fé inabalável na mãe, Hwa. Todas elas atestam uma luta constante para encontrar um lugar no mundo.

Independentemente dos méritos da autora, a tradução tem várias falhas a lamentar. Desde o uso de várias formas de transcrição do mesmo termo chinês (veja-se a página 117 onde aparece Sichuan e Szechuan) a gralhas dispensáveis, como a grafia “facto” em vez de “fato” (de vestir!) na página 173. Também as notas da tradução, pelo menos num caso, são incorrectas. Na página 46 temos esta pérola: à frase do livro “A suite nupcial era no antigo pátio, construído em redor de um jardim com uma pontezinha pedonal e um regato impetuoso e pedras magníficas dispostas segundo as pinturas de paisagens da eminente dinastia Soong” corresponde a inenarrável nota de rodapé referente a Soong: “Poderosa família em que se destacam as futuras esposas de Chian Kai-shek e Sun Yat-sen. Esta última, Soong Ching-ling, foi uma grande protectora das artes e da pintura em particular”. Qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento sobre a China sabe que a autora de referia à Dinastia Song, que governou a China de meados do século X a meados do século XIII e não à poderosa família Song do século XX!

Referências:
Lan Samantha Chang, A Herança, Porto, Civilização Editora, 2005, 292 pp.

6.7.09

Portraits Taiwan II


Lin Hwai-min
Lin Hwai-min é um respeitado coreógrafo, fundador da prestigiada Cloud Gate Dance Theathre of Taiwan. Este documentário procura traçar o seu percurso inovador, na medida em que terá sido pela sua perseverança e génio criativo que nasceu a primeira companhia de dança contemporânea de Taiwan, cujo repertório, idealizado por Lin Hwai-min, procura transpor para a dança uma ligação ao território. Após ter estudado nos EUA e buscado inspiração na tradição chinesa quando do seu regresso a Taiwan, Lin Hwai-min avançou para criações que procurassem transmitir a identidade taiwanesa.
Particularmente interessante é facto de, mesmo estando à frente de uma das melhores companhias de dança do mundo, Lin Hwai-min persistir na organização de espectáculos gratuitos para as populações de várias cidades de Taiwan, espectáculos esses que considera mais relevantes que as apresentações nas grandes casas de espectáculo pelo mundo fora. Uma prova de que a cultura pode e deve estar acessível a todos.


King Liu
King Liu fundou uma das mais importantes marcas de bicicletas do mundo: a Giant. Há décadas que este senhor se dedica não só à produção de bicicletas como ao seu progressivo aperfeiçoamento, tornando a Giant, que criou nos anos 70, uma marca conhecida em todo o mundo e comprovando que o “made in Taiwan” podia ser garantia de qualidade.
O programa procura mostrar o trabalho na Giant e o seu progressivo crescimento, incluindo testemunhos captados nos Estados Unidos, mercado muito competitivo onde a Giant triunfou.


Chen Wun Yu
Chen Wun Yu cresceu numa quinta em Taiwan, ainda sob ocupação japonesa. A sua experiência de vida marcou-o profundamente e foi determinante para a sua actividade profissional. Tendo aprofundado os seus estudos agrícolas no Japão, Chen Wun Yu criou a Known You Seed Company, uma empresa de topo de produção de sementes de produtos agrícolas, nomeadamente melancias, daí que Chen Wun Yu tenha sido apelidado de “o rei das melancias”. Aperfeiçoadas laboratorialmente, as suas sementes visam conseguir melhores culturas que permitam também aos agricultores melhorarem as suas condições de vida.
Incluindo testemunhos de especialistas japoneses conhecedores do trabalho de Chen Wun Yu e imagens captadas na Ásia do Sueste, onde Chen Wun Yu incentivou lugares de produção e onde construiu um hospital para servir os camponeses pobres, o documentário mostra-nos mais um caso de um homem que chegou longe mas não esqueceu as suas raízes.


Dr. Henry Lee
A forma de tratar um local de crime que estamos hoje habituados a ver em séries como CSI foi na verdade desenvolvida por um taiwanês que hoje vive nos EUA, o Dr. Henry Lee. Entre os casos famosos que ajudou a investigar contam-se o julgamento de O. J. Simpson ou o 11 de Setembro.
Hoje uma autêntica estrela da criminologia, o Dr. Henry Lee começou por integrar a polícia em Taiwan, pois a frequência da academia era gratuita, prosseguindo depois os estudos nos EUA. Actualmente, o Dr. Henry Lee usa parte dos seus lucros obtidos pela venda de livros ou de conferências que dá para patrocinar jovens taiwaneses que queiram criar criminologia nos EUA e não esqueceu o sítio onde se formou, visitando-o e apoiando-o com fundos e partilhando os seus conhecimentos.


Mestre de Dharma Cheng Yen
A Mestre Cheng Yen deixou a sua casa aos 23 anos para se tornar monja budista. Impressionada pela pobreza e pela doença das populações, pôs em marcha aquilo que é hoje uma monumental organização de caridade que conta com milhões de voluntários e cuja acção se estende por todo o mundo, a Tzu Chi.
Graças à acção da Mestre Cheng Yen, desde os anos 60 já foram construídos vários hospitais e estabelecimentos de educação, e não apenas em Taiwan. A Mestre Cheng Yen e as suas discípulas acreditam que a compaixão essencial no Budismo só tem valor de for traduzida em acções e o tempo que passam a servir as pessoas é muito maior ao que todos os dias passam em oração.
O programa centra-se mais na obra que na vida da Mestre Cheng Yen. E a obra é imensa: vemos, por exemplo, a acção da Tzu Chi no Sri Lanka após o tsunami de 2004 e a ajuda prestada a vítimas do furacão Katrina em Nova Orleães, podemos ver o canal televisivo da organização e perceber como são treinados os voluntários... Impressionante.

Chang Hui-Mei aka A-mei
Esta jovem da etnia Puyuma tornou-se uma das maiores estrelas pop de Taiwan e da Ásia, vendendo milhões de discos e derrubando barreiras nos seus espectáculos ao vivo, onde a sua voz e liberdade de movimentos foram inovadores em Taiwan. Todavia, A-mei não renegou as suas origens e continua a participar em actividades da comunidade Puyuma.
Primeira cantora taiwanesa a ser considerada pela Time como uma das personalidades do ano, A-mei suscitou atenção por parte da comunidade internacional pela boa recepção que obteve na China, sendo a sua música considerada uma ponte entre os dois lados do estreito.
Neste programa a ascensão de A-mei é revisitada, desde a sua participação em concursos televisivos e às suas actuações em bares até ao sucesso nos anos 90, dos efeitos negativos que teve a sua actuação na tomada de posse do presidente Chen Shui-bian (candidato do DPP e defensor da independência de Taiwan) em 2000, onde cantou o hino nacional, até à sua recuperação.

5.7.09

The Lin Family Shop


Dez anos após a proclamação da República Popular da China, o filme The Lin Family Shop (林家铺子) recuava até ao início dos anos 30 e aos males que a vitória do Partido Comunista teria feito acabar: o imperialismo, o feudalismo e o capitalismo. Baseado num célebre romance de Mao Dun (1896-1981), um intelectual ligado ao Movimento Nova Cultura que depois se aproximou do PCC e veio a ser Ministro da Cultura sob o domínio de Mao, The Lin Family Shop, realizado por Shui Hua, é cinematograficamente interessante (nomeadamente pela forma como é tirado partido do espaço limitado das ruas de comércio) e conta com uma interpretação memorável de Xie Tian. Pese embora as suas intenções propagandísticas, estamos perante um retrato interessante das condições de vida sob o Governo Nacionalista no início da agressão japonesa e um peculiar objecto de reflexão e confronto perante a China dos dias de hoje: onde o capitalismo é selvagem e onde muito do que vemos no filme – como a corrupção das autoridades locais – é notícia constante.

O filme inicia-se em 1931. Com a tomada da Manchúria pelos Japoneses, a população de uma pequena cidade na província de Zhejiang está em alvoroço: os jovens percorrem as ruas apelando ao boicote dos produtos japoneses e os comerciantes procuram a melhor forma de fazerem negócio, subornando as autoridades locais e escondendo sob rótulos chineses os produtos japoneses. É neste contexto que encontramos a família Lin. Com o avançar do conflito e a proximidade do Ano Novo Chinês, o patriarca, dono de um estabelecimento comercial, procura manter-se à tona financeiramente, nem que para isso tenha de cobrar dívidas a outros comerciantes mais novos que ele e aproveitar a oportunidade de negócio proporcionada por uma vaga de refugiados de Xangai. A inveja de outros comerciantes menos bem sucedidos e a ameaça que pairava sob a sua filha, que um chefe militar queria para esposa, conduzem ao colapso, não só da desesperada família de pequenos comerciantes como dos mais pobres que a eles estavam ligados.

Como é dito num intertítulo inicial, era uma época em que “os peixes grandes comiam os pequenos e os peixes pequenos comiam os camarões”. E se o filme consegue uma empatia com o drama da família Lin – que valeu ao filme ataques durante a Revolução Cultural, sendo acusado de ser demasiado simpático para com os capitalistas – a verdade é que o tom de maior compreensão vai para com os “camarões” dessa feroz cadeira alimentar. Na China de hoje um filme destes não poderia ser mais pertinente.

[O meu obrigada ao tf10 por me ter dado acesso a esta obra]

3.7.09

A China Fica ao Lado


A China Fica ao Lado reúne 14 contos de Maria Ondina Braga (1932-2003), escritora portuguesa que viveu parte da sua vida em Macau. Estas suas histórias reflectem essa experiência no território ainda sob alçada portuguesa e os seus habitantes, alguns dos quais marcados profundamente pelas vicissitudes políticas da China do século passado.
Cada conto centra-se em histórias tão simples como extraordinárias de pessoas comuns, cujas experiências Maria Ondina Braga relata com um misto de sensibilidade intimista e curiosidade de observadora estrangeira.
Do conjunto destacaria o primeiro, “A China Fica ao Lado”, impressionante mergulho no conflito interior de uma mulher a efectuar um aborto, a tocante história de amor filial de “O Homem do Sam-Un-Ché” e o vivo retrato colectivo de “A Pousada da Amizade”.
Já tinha tido um contacto superficial com a prosa desta escritora mas agora, depois de ler este livro de contos, que encontrei por mero acaso num alfarrabista, fiquei com vontade de descobrir os seus outros livros sobre Macau...
Um dos contos presentes nesta obra pode ser lido aqui.

Referências: Maria Ondina Braga, A China Fica ao Lado, Lisboa, Editores Associados, s.d. (1ª edição de 1968), 160 pp.

1.7.09

12 anos

30.6.09

Juntos em Xangai

Gong Li e John Cusack em Shanghai (2009), de Mikael Håfström

A minha actriz asiática favorita e o meu actor guilty pleasure por excelência juntos num filme sobre Xangai durante os anos 40? Não podia haver, neste momento, novidade cinematográfica mais entusiasmante para mim!

29.6.09

Cloud Gate


Cloud Gate Dance Theatre of Taiwan
considerada uma das melhores companhias de dança do mundo...

27.6.09

China's Little Devils

China’s Little Devils foi o último filme do americano Monta Bell. Feito em 1945, e estreado alguns meses antes da capitulação do Japão, é claramente um filme com intenções propagandísticas relacionadas com a II Guerra Mundial, neste caso em específico com a resistência chinesa à agressão do Japão. Centrado num grupo de crianças que sabotavam postos japoneses em território chinês, conhecidas como “little devils”, o filme é uma produção de baixo orçamento (segundo a folha da Cinemateca as imagens reais presentes em China’s Little Devils foram retiradas de The Battle of China de Frank Capra) e de não muito maior inspiração, sendo um dos exemplos mais fracos que vi no ciclo da Cinemateca dedicado a Monta Bell. Ainda assim, não é desprovido de interesse histórico, na medida em que expõe uma solidariedade americana para com os chineses que é notória noutros filmes produzidos depois da entrada dos EUA na II Guerra (já aqui mencionei Flying Tigers e Blood on the Sun). Vale também a pena ver China’s Little Devils pela figura enérgica de Little Butch, interpretada pelo pequeno ‘Ducky’ Louie, actor sobre o qual não consigo encontrar grande informação...

26.6.09

Michael Jackson lembrado na China e em Taiwan

Chinese mourn passing of Michael Jackson

Taiwanese music circles remember Michael Jackson


Every day create your history
Every path you take you’re leaving your legacy
Michael Jackson, “HIStory”

Taipei Film Festival 2009


Começa hoje a 11ª edição do Taipei Film Festival. O filme taiwanês de abertura é Yang Yang de Cheng Yu-chieh. Além de uma forte presença de cinema de Taiwan, o festival conta com secções dedicadas à Alemanha e à América Latina.
Por aqui fica-se a suspirar por uma altura em que o cinema asiático – incluindo a interessantíssima cinematografia taiwanesa – consigam ser vistas com mais facilidade e em muito maior quantidade em Portugal...