30.6.08

O Reino das Mulheres


Quero dizer que o facto de serem as mulheres a mandar faz parte da nossa cultura, e é algo que nos distingue. Acontece o mesmo com a nossa maneira «axia» de matrimónio, o matrimónio errático. É o nosso modo de vida desde que existem os Mosuo, um modo de vida que todos devem respeitar. (p. 127)

Chegou recentemente às livrarias portuguesas o livro O Reino das Mulheres. O Último Matriarcado (El Reino de las Mujeres. El Último Matriarcado), obra com uma premissa apelativa: mostrar o funcionamento da sociedade matriarcal dos Mosuo, na China.
O argentino Ricardo Coler, apresentado na banda lateral como médico, fotógrafo e jornalista, viajou até aos Himalaias, entre as províncias do Yunnan e de Sichuan, perto da fronteira tibetana, para conviver algum tempo junto dos Mosuo, povo onde as mulheres dominam toda a organização social.
Entre os Mosuo os filhos mais desejados são as meninas, algo muito contrário ao que nos habituámos a ouvir sobre os Chineses Han. O lar é tutelado por uma matriarca, verdadeira chefe de família. As mulheres trabalham arduamente e organizam as finanças e o lar. Podem ter muitos parceiros ao longo da vida, sendo que habitualmente nunca vivem na mesma casa. São as mulheres que criam os seus filhos, e estes vivem em sua casa. Os homens Mosuo trabalham menos e não têm grande autoridade, assumindo alguns um papel mais de arbitragem política.
A questão do casamento errático, que tem como única base de validação o afecto, e que se dissolve quando este acaba, é um dos aspectos particularmente curiosos, tanto mais que sobreviveu a todas as tentativas de mudança impostas pelo regime comunista nos anos Mao ([...] logo que os enviados de Mao se retiravam, cada noivo voltava para o seu lugar, como se tudo aquilo não tivesse passado de uma brincadeira).
As informações fornecidas sobre o quotidiano deste povo são bastante interessantes, sobretudo pela imagem de paz, dedicação ao trabalho e à família e desapego material, que emerge das páginas de Coler.
A liberdade e o poder das mulheres Mosuo constituem traços fascinantes para qualquer feminista. O mesmo já não se pode dizer de algumas deixas do autor. Se a opção por uma prosa onde o narrador assume os seus pensamentos, dúvidas e pareceres de forma bastante “terra-a-terra” é compreensível – estando a obra mais próxima de um relato de viagem que de um estudo antropológico – existem, porém, algumas tiradas onde a visão preconceituosa de estrangeiro – e homem – emerge, como por exemplo: Não deve ser fácil, para uma mulher ocidental, viver entre os Mosuo. Além da sobrecarga laboral e da responsabilidade que teria, também não lhe seria fácil encontrar homens por quem se apaixonasse. É esse um dos preços pagos pelas mulheres das sociedades matriarcais (...). Estabelecer uma tal comparação não só é insultuosamente redutor para as mulheres ocidentais como demonstra uma relativa falta de compreensão para com a sociedade que o autor foi conhecer (nem o trabalho é um fardo nem as relações amorosas são uma inexistência entre os Mosuo).

A apreciação mais pessoal que científica é, para mim, uma das fraquezas do livro, cujo conteúdo considero bem mais interessante que a forma como foi escrito. Todavia, a obra não deixa de despertar alguma curiosidade para estudos que possam existir sobre os Mosuo e o seu fascinante modo de vida. Assim, O Reino das Mulheres funcionará mais como um ponto de partida, suscitando o interesse sobre este povo mas não satisfazendo por inteiro enquanto retrato dele.

Referências:
Ricardo Coler, O Reino das Mulheres. O Último Matriarcado, Lisboa, Quetzal Editores, 2008, 190 pp.

Para saber mais sobre os Mosuo visite-se o site da Mosuo Cultural Development Association.

29.6.08

A História é essencial

But the past is no more another country in China than anywhere else – and that past needs to be understood to grasp the deeper currents beneath the gleaming modern China.

Jonathan Fenby, “To understand China’s future, look to its past” in The Times, 24 de Junho de 2008.

25.6.08

Congresso Feminista


Amanhã e nos dias seguintes, na Fundação Calouste Gulbenkian e na Faculdade de Belas-Artes, o Congresso Feminista dá a conhecer o trabalho de vários académicos e activistas, em nome da transformação de uma sociedade hierarquizada e desigual.
Por aqui saúda-se a iniciativa e recomenda-se a participação. Mais informações na página oficial.

24.6.08

#4


Aqui está o #4 da Take, com algum atraso mas com a qualidade a que a revista já nos habituou. Na capa, Indy é dá lugar a um muito verde Edward Norton. Nesta edição temos ainda bd no cinema, Movie Brats, Akimbo, antevisões de séries televisivas... e a habitual dose de entrevistas, críticas, ciclos, festivais, passatempos (atenção às fantásticas ofertas de dvd deste mês) e muito mais. Eu andei de novo pelos Dias do Paraíso e conto como foi.
Passem por lá!

Textos meus nesta edição:
- Há 30 Anos: Days of Heaven, de Terrence Malick
- Ciclo da Cinemateca: Cinemateca: 50 Anos

21.6.08

Terramoto em bd

China 5.12 Earthquake Strips

Fantástico blogue da artista chinesa Coco Wang com as suas tiras de banda desenhada inspiradas no terramoto de Sichuan. Visitem!

19.6.08

A China vista por Riboud

Fotografia de Marc Riboud
Vista do interior de um antiquário
Pequim, 1965

16.6.08

Cui Jian em Portugal

(foto retirada do site oficial de Cui Jian)

Cui Jian, considerado o “pai do rock chinês”, vai actuar pela primeira vez em Portugal este ano. O concerto será dia 25 de Julho, em Sines, integrado no Festival Músicas do Mundo. Cui Jian foi o grande responsável pela introdução e difusão da música popular ocidental na China, um artista ímpar, que foi a voz por excelência da juventude chinesa nos anos 80. Um dos seus maiores êxitos, “Nothing to My Name”, foi mesmo um dos hinos dos estudantes durante os protestos de Tiananmen em 1989.
A sua vinda a Portugal é sem dúvida uma grande notícia pois Cui Jian é uma autêntica lenda viva da música chinesa e um nome incontornável da cultura da China contemporânea.

Página do evento
Página oficial de Cui Jian
MySpace de Cui Jian

15.6.08

Treasury of Chinese Musical Instruments

Nada melhor do que deixar-me embalar pelos sons tradicionais chineses enquanto me debato com trabalhos e estudo para testes...
Fica aqui a sugestão:

(Wind Instruments)

(Bowed String Instruments)


(Plucked String Instruments)


(Ensembles)

14.6.08

Ajuda às vítimas do terramoto

A comunidade luso-chinesa residente em Portugal criou uma associação para angariar fundos com vista a ajudar as crianças vítimas do terramoto que abalou a China recentemente.

Para obter mais informações e saber como contribuir consultem a página oficial da Associação de Apoio à Vítima do Terramoto de Sichuan (AVITS).

10.6.08

Red Dust


And she keeps asking me again and again. ‘What is it you are looking for?
And I say, ‘I want to see my country, every river, every mountain. I want to see different people, different lives.’
‘Why are you travelling?’
‘China is a black hole, I want to dive into it. I don’t know where I am going. I just know I had to leave. Everything I was I carry with me, everything I will be lies waiting on the road ahead. I want to think on my feet, live on the run. Never again can I endure to spend my life in one room.’
‘Do you want to change this country?’
‘I just want to know it, see it with my own eyes.’
(p. 165)

Ma Jian tinha 30 anos e trabalhava para um departamento de propaganda quando, em 1983, tudo lhe começou a correr realmente mal: apanhado numa campanha contra a “poluição espiritual”, perdeu a confiança dos colegas de trabalho, descobriu que a sua companheira tinha um amante e a sua ex-mulher proibiu-o de ver a filha de ambos. Tendo prestado votos budistas, e com papéis mais ou menos “forjados”, Ma Jian deixou a sua casa em Pequim e partiu. A viagem durou três anos e incluiu várias províncias, várias povoações, vários trabalhos, várias conversas e várias pessoas pelo caminho, amigos e desconhecidos, que o autor descreve de forma extremamente viva.
Ma Jian foi em busca da China tanto quanto foi em busca de si mesmo. O resultado, que podemos ler em Red Dust, incute, de certa maneira, a vontade de repetirmos o seu percurso.

Red Dust é um livro fascinante, pela forma extremamente pessoal como Ma Jian descreve a sua jornada, incluindo na obra excertos dos seus blocos escritos em viagem. A China de Red Dust está entre o período Mao (que morrera há poucos anos) e a China moderna de hoje (que então se começava a forjar). O autor percorreu cidades e aldeias, zonas desérticas e montanhosas. Na sua viagem descobriu um país onde existem profundas diferenças, do desenvolvimento promissor de Shenzhen a povoações alheias aos projectos de modernização de Deng Xiaoping. Ma Jian acabou também por se interessar por minorias étnicas, visitando várias povoações onde vivem pessoas não-Han, como os Li, os Jinuo ou os Lahu. Por fim, chegou ao Tibete e escolheu deixar, de certa maneira, um último lugar por visitar. Para que não houvesse realmente um final.
A viagem começou com um desejo de fuga e terminou com um desejo de retorno a casa. Sabemos hoje que isso não sucedeu, ou pelo menos não completamente. Ao regresso a Pequim seguiu-se uma partida para Hong Kong (não definitiva) e daí para Londres, onde Ma Jian ainda hoje vive e onde já publicou vários livros, sendo o último Beijing Coma, sobre cuja interessante premissa podem ler mais aqui.

Referências:
Ma Jian, Red Dust. A Path Through China, London, Vintage Books, 2002, 324 pp.

9.6.08

A China vista por Capa

Fotografia de Robert Capa
Grupo de mulheres a serem treinadas como soldados do exército nacionalista
Hankou, Março de 1938

8.6.08

O estrangeiro


Este Shadows não é a obra-prima de liberdade artística de John Cassavetes mas sim um outro filme americano, realizado por Tom Forman em 1922. Trata-se de um exemplo do fascínio – e do preconceito – relativamente ao Oriente patente em várias obras do cinema mudo e das primeiras décadas do sonoro. O filme passa-se numa pequena vila piscatória, Urkey, e nas peripécias que unem uma jovem mulher (Marguerite De La Motte) e um funcionário recentemente chegado (Harrison Ford – não, não é o que conhecemos hoje). Pelo meio encontramos a figura de Yen Sin, um náufrago chinês (interpretado pelo espantoso Lon Chaney) que acaba a gerir uma lavandaria, um trabalho que o mostra como criado dedicado (a expressão “humble dog” é mesmo usada num dos intertítulos) das gentes da povoação, que, regra geral, o desprezam pela sua diferença, sobretudo em termos religiosos. No entanto, Yen Sin acaba por granjear a simpatia de alguns membros da comunidade e de provar inequivocamente o seu bom carácter ao expor a verdade sobre o principal problema que separa o casal de enamorados.
A figura de Yen Sin, conquanto seja indubitavelmente uma personagem “boa” e seja interpretada de forma magnífica por Chaney, é tão caricatural que não é sem custo que a vemos nos dias de hoje. Embora a história pretenda transmitir uma lição de tolerância, ela também testemunha uma visão ocidental preconceituosa face aos orientais. Mostra ainda o sonho persistente de conversão de orientais ao Cristianismo (relembremos o papel que missionários americanos desempenharam na China, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX).
Segundo esta página, o filme teve de ser distribuído em salas independentes, “Due to exhibitor hostility with a Chinese hero”, um dado que já por si prova um certo racismo presente em sectores da sociedade americana de então.
Shadows é um melodrama mediano, com algumas semelhanças com outros filmes do género feitos nos EUA nos anos 20. Vale a pena ver sobretudo pela prestação de Chaney e pela imagem, algo paternalista (para dizer o mínimo) mas sem dúvida curiosa, que é dada de um chinês pelos olhos americanos do princípio do século XX.

Lon Chaney como Yen Sin

7.6.08

Mr. Democracy

(Foto retirada daqui)


On 4 May 1989 itself, protesters in Tian’anmen Square held up signs written in Chinese and English, reading ‘Hello Mr Democracy!’, a clear reference to the May Fourth duo, ‘Mr Science and Mr Democracy’, who had been tasked with China’s salvation 70 years earlier.

In spring 1989, Tian’anmen Square in Beijing was the scene of an unprecedented demonstration. At its height, nearly a million Chinese workers and students, in a cross-class alliance rare by the late 20th century, filled the space in front of the Gate of Heavenly Peace.


Rana Mitter, Modern China: A Very Short Introduction, Oxford/New York, Oxford University Press, 2008, pp. 68.


A propósito, a Amnistia Internacional está a promover uma campanha de apoio às mães das vítimas da repressão de Tiananmen. A acção passa pela recolha de assinaturas numa petição. Mais informações podem ser lidas aqui.

6.6.08

Poema #4

Plaint

Spring flowers, Autumn moons,
Water lilies still carry
Away my heart like a lost
Boat. As long as I am flesh
And bone I will never find
Rest. There will never come a
Time when I will be able
To resist my emotions.


Chu Shu Chen


Retirado de: Kenneth Rexroth, One Hundred Poems from the Chinese, New York, New Directions, 1971, 145 pp.

5.6.08

A China de William Yang


Os avós de William Yang deixaram a China no final do século XIX e conheceram-se na Austrália, onde os pais de William nasceram e de onde William também é natural. Ele não fala chinês, nunca viveu permanentemente na China mas nesse incontornável ano de 1989 viajou até ao país dos seus avós (onde depois voltou algumas vezes). Viajou com amigos ou acompanhantes inesperados. Percorreu várias províncias e várias montanhas sagradas. Viu partes de uma China tradicional e partes de uma China moderna, atracções turísticas e recantos isolados em plena comunhão com a natureza. William Yang fotografou e filmou, recolheu histórias e acumulou experiências. E contou essas memórias no Museu do Oriente no seu espectáculo “China”, que passou por Lisboa integrado no Alkantara Festival.

Em dois ecrãs eram exibidas muitas fotografias e alguns vídeos enquanto Yang, de pé em frente a um microfone, nos contava como foi conhecer a China, raiz longínqua de parte da sua identidade. Por vezes (talvez demasiado poucas) era acompanhado pelos acordes tocados por um músico, sentado a um canto do palco. Com serenidade e humor, Yang contou-nos da sua China, das pessoas que encontrou, dos pratos que provou, das montanhas que subiu... do mundo que descobriu.

“China” não é grandioso nem espectacular. Mas tem uma simplicidade que nos prende, e a forma pessoal como Yang fala da sua viagem torna-se por vezes fascinante, mesmo que nem todos os momentos tenham o mesmo interesse ou a mesma graça.

4.6.08

Mao por Warhol


Andy Warhol, Mao Tse Tung, 1972

3.6.08

China unida

After the disaster, it will be harder to stifle the civic impulses of people like Chen Gang, the president of a Chengdu knife-manufacturing company who scrambled to help with relief efforts. The country was focused on material things, Chen says, but the earthquake forced people to remember their fellow citizens. “The whole country suddenly united. It was really miraculous”, says Chen, 49. “For the nation historically, when you come back later it will be [considered] a good thing. I’m not talking about the party, I’m talking about this land”.

Simon Elegant, “Helping Hands” in Time [edição europeia], June 2, 2008, pp. 26-31.

2.6.08

Bahok


Bahok”, espectáculo integrado no Alkantara Festival, marca a primeira colaboração de Akram Khan, bailarino e coreografo de origem bangladeshi, com o Nacional Ballet of China. No palco, bailarinos de várias origens (China, África do Sul, Índia, Coreia, Espanha...) dando corpo a uma evocação do mundo de hoje, numa sala de espera de aeroporto. Mostra-se a forma como se separam, colidem, as falhas de comunicação. Mas também as formas de estabelecer contacto, de partilhar. Todos eles são nómadas, são “carregadores” (significado do termo “bahok” em bengali). Trazem consigo memórias e esperanças. A sua casa.
Não tenho por hábito ir ver bailado contemporâneo mas de certa maneira o que sinto ao ver bailado clássico é similar. Uma espécie de libertação e admiração pelo movimento e pela forma como este se relaciona com a música – neste caso uma composição poderosa de Nithin Sawney, que reflecte, tal como a coreografia, influências multiculturais.
Para mais, “Bahok” consegue congregar momentos de um certo humor com vários outros mais comoventes, o que torna o espectáculo bastante envolvente. O próprio tema da identidade e do não se saber onde se pertence realmente é hoje, talvez mais do que nunca, uma sensação muito presente para cada vez mais pessoas.

Ver um pequeno behind the scenes de “Bahok”, aquando da sua apresentação em Inglaterra.