Quero dizer que o facto de serem as mulheres a mandar faz parte da nossa cultura, e é algo que nos distingue. Acontece o mesmo com a nossa maneira «axia» de matrimónio, o matrimónio errático. É o nosso modo de vida desde que existem os Mosuo, um modo de vida que todos devem respeitar. (p. 127)
Chegou recentemente às livrarias portuguesas o livro O Reino das Mulheres. O Último Matriarcado (El Reino de las Mujeres. El Último Matriarcado), obra com uma premissa apelativa: mostrar o funcionamento da sociedade matriarcal dos Mosuo, na China.
O argentino Ricardo Coler, apresentado na banda lateral como médico, fotógrafo e jornalista, viajou até aos Himalaias, entre as províncias do Yunnan e de Sichuan, perto da fronteira tibetana, para conviver algum tempo junto dos Mosuo, povo onde as mulheres dominam toda a organização social.
Entre os Mosuo os filhos mais desejados são as meninas, algo muito contrário ao que nos habituámos a ouvir sobre os Chineses Han. O lar é tutelado por uma matriarca, verdadeira chefe de família. As mulheres trabalham arduamente e organizam as finanças e o lar. Podem ter muitos parceiros ao longo da vida, sendo que habitualmente nunca vivem na mesma casa. São as mulheres que criam os seus filhos, e estes vivem em sua casa. Os homens Mosuo trabalham menos e não têm grande autoridade, assumindo alguns um papel mais de arbitragem política.
A questão do casamento errático, que tem como única base de validação o afecto, e que se dissolve quando este acaba, é um dos aspectos particularmente curiosos, tanto mais que sobreviveu a todas as tentativas de mudança impostas pelo regime comunista nos anos Mao ([...] logo que os enviados de Mao se retiravam, cada noivo voltava para o seu lugar, como se tudo aquilo não tivesse passado de uma brincadeira).
As informações fornecidas sobre o quotidiano deste povo são bastante interessantes, sobretudo pela imagem de paz, dedicação ao trabalho e à família e desapego material, que emerge das páginas de Coler.
A liberdade e o poder das mulheres Mosuo constituem traços fascinantes para qualquer feminista. O mesmo já não se pode dizer de algumas deixas do autor. Se a opção por uma prosa onde o narrador assume os seus pensamentos, dúvidas e pareceres de forma bastante “terra-a-terra” é compreensível – estando a obra mais próxima de um relato de viagem que de um estudo antropológico – existem, porém, algumas tiradas onde a visão preconceituosa de estrangeiro – e homem – emerge, como por exemplo: Não deve ser fácil, para uma mulher ocidental, viver entre os Mosuo. Além da sobrecarga laboral e da responsabilidade que teria, também não lhe seria fácil encontrar homens por quem se apaixonasse. É esse um dos preços pagos pelas mulheres das sociedades matriarcais (...). Estabelecer uma tal comparação não só é insultuosamente redutor para as mulheres ocidentais como demonstra uma relativa falta de compreensão para com a sociedade que o autor foi conhecer (nem o trabalho é um fardo nem as relações amorosas são uma inexistência entre os Mosuo).
Chegou recentemente às livrarias portuguesas o livro O Reino das Mulheres. O Último Matriarcado (El Reino de las Mujeres. El Último Matriarcado), obra com uma premissa apelativa: mostrar o funcionamento da sociedade matriarcal dos Mosuo, na China.
O argentino Ricardo Coler, apresentado na banda lateral como médico, fotógrafo e jornalista, viajou até aos Himalaias, entre as províncias do Yunnan e de Sichuan, perto da fronteira tibetana, para conviver algum tempo junto dos Mosuo, povo onde as mulheres dominam toda a organização social.
Entre os Mosuo os filhos mais desejados são as meninas, algo muito contrário ao que nos habituámos a ouvir sobre os Chineses Han. O lar é tutelado por uma matriarca, verdadeira chefe de família. As mulheres trabalham arduamente e organizam as finanças e o lar. Podem ter muitos parceiros ao longo da vida, sendo que habitualmente nunca vivem na mesma casa. São as mulheres que criam os seus filhos, e estes vivem em sua casa. Os homens Mosuo trabalham menos e não têm grande autoridade, assumindo alguns um papel mais de arbitragem política.
A questão do casamento errático, que tem como única base de validação o afecto, e que se dissolve quando este acaba, é um dos aspectos particularmente curiosos, tanto mais que sobreviveu a todas as tentativas de mudança impostas pelo regime comunista nos anos Mao ([...] logo que os enviados de Mao se retiravam, cada noivo voltava para o seu lugar, como se tudo aquilo não tivesse passado de uma brincadeira).
As informações fornecidas sobre o quotidiano deste povo são bastante interessantes, sobretudo pela imagem de paz, dedicação ao trabalho e à família e desapego material, que emerge das páginas de Coler.
A liberdade e o poder das mulheres Mosuo constituem traços fascinantes para qualquer feminista. O mesmo já não se pode dizer de algumas deixas do autor. Se a opção por uma prosa onde o narrador assume os seus pensamentos, dúvidas e pareceres de forma bastante “terra-a-terra” é compreensível – estando a obra mais próxima de um relato de viagem que de um estudo antropológico – existem, porém, algumas tiradas onde a visão preconceituosa de estrangeiro – e homem – emerge, como por exemplo: Não deve ser fácil, para uma mulher ocidental, viver entre os Mosuo. Além da sobrecarga laboral e da responsabilidade que teria, também não lhe seria fácil encontrar homens por quem se apaixonasse. É esse um dos preços pagos pelas mulheres das sociedades matriarcais (...). Estabelecer uma tal comparação não só é insultuosamente redutor para as mulheres ocidentais como demonstra uma relativa falta de compreensão para com a sociedade que o autor foi conhecer (nem o trabalho é um fardo nem as relações amorosas são uma inexistência entre os Mosuo).
A apreciação mais pessoal que científica é, para mim, uma das fraquezas do livro, cujo conteúdo considero bem mais interessante que a forma como foi escrito. Todavia, a obra não deixa de despertar alguma curiosidade para estudos que possam existir sobre os Mosuo e o seu fascinante modo de vida. Assim, O Reino das Mulheres funcionará mais como um ponto de partida, suscitando o interesse sobre este povo mas não satisfazendo por inteiro enquanto retrato dele.
Referências:
Referências:
Ricardo Coler, O Reino das Mulheres. O Último Matriarcado, Lisboa, Quetzal Editores, 2008, 190 pp.
Para saber mais sobre os Mosuo visite-se o site da Mosuo Cultural Development Association.
Para saber mais sobre os Mosuo visite-se o site da Mosuo Cultural Development Association.


Fotografia de Marc Riboud
(
(

Fotografia de Robert Capa
Lon Chaney como Yen Sin 

After the disaster, it will be harder to stifle the civic impulses of people like Chen Gang, the president of a Chengdu knife-manufacturing company who scrambled to help with relief efforts. The country was focused on material things, Chen says, but the earthquake forced people to remember their fellow citizens. “The whole country suddenly united. It was really miraculous”, says Chen, 49. “For the nation historically, when you come back later it will be [considered] a good thing. I’m not talking about the party, I’m talking about this land”.


