30.10.08

Excerto #7

A visão oitocentista de Eça relativamente à China:

- Mas, general – murmurei – eu quero livrar-me da presença odiosa do velho Ti Chin-Fu e do seu papagaio!... Se eu entregasse metade dos meus milhões ao Tesouro chinês, já que não me é dado pessoalmente aplicá-los, como mandarim, à prosperidade do Estado...? Talvez Ti Chin-Fu se acalmasse...
O general pousou-me paternalmente a vasta mão sobre o ombro:
- Erro, considerável erro, mancebo! Esses milhões nunca chegariam ao Tesouro imperial. Ficariam nas algibeiras insondáveis das classes dirigentes: seriam dissipados em plantar jardins, coleccionar porcelanas, tapetar de peles os soalhos, fornecer sedas às concubinas: não aliviariam a fome de um só chinês, nem reparariam uma só pedra das estradas públicas... Iriam enriquecer a orgia asiática. A alma de Ti Chin-Fu deve conhecer bem o Império: e isso não a satisfaria.
- E se eu empregasse parte da fortuna do velho malandro em fazer particularmente, como filantropo, largas distribuições de arroz à populaça faminta? É uma ideia...
- Funesta – disse o general, franzindo medonhamente o sobrolho. – A corte imperial veria aí imediatamente uma ambição política, o tortuoso plano de ganhar os favores da plebe, um perigo para a Dinastia... O meu bom amigo seria decapitado... É grave...
- Madição! – berrei. – Então para que vim eu à China?

Eça de Queiroz, O Mandarim, Lisboa, Livros do Brasil, s.d. (1ª edição de 1880), pp. 84 e 85

29.10.08

Autor chinês vence festival Cine Eco


O filme Em Construção, rodado em Xangai pelo chinês Zhenchen Liu, venceu o Grande Prémio do Júri Internacional e o Grande Prémio do Juri da Juventude no festival Cine Eco 2008.
Podem ler mais informações no blogue do director do festival, Lauro António.

Notas do Doc #4



A Day to Remember, de Liu Wei

Com poucos meios e com pouco tempo se fez uma das obras mais interessantes que vi neste DocLisboa. Em A Day to Remember (2005) realizador Liu Wei saiu à rua com a sua câmara e entrevistou pessoas ao acaso, perguntando-lhes se sabiam que dia era. Até aqui pode parecer banal, mas o dia em causa era 4 de Junho de 2005, aniversário do esmagamento das manifestações dos estudantes na praça Tiananmen em 1989.
O autor dirige-se sobretudo a jovens estudantes, alguns expressando (ou simulando) desconhecimento, outros anuindo que sabiam que dia era mas que não iriam falar. De todos os entrevistados, apenas uma identifica claramente o dia, mas recusa-se a comentá-lo. De todos os testemunhos emerge uma ideia de medo e incómodo pela pergunta. Terminando com um plano belíssimo, de velas formando os números 6 (mês) e 4 (dia), A Day to Remember – título que evidencia bem a posição do autor quanto ao ssunto – é um importante contributo contra o esquecimento forçado de um acontecimento marcante do século XX chinês.



Year by Year, de Liu Wei

Na véspera do Ano Novo Chinês de 2004, o realizador Liu Wei percorreu os espaços decrépitos onde se alojam milhares de peticionários em Pequim. Homens e mulheres de várias províncias que se deslocaram à capital para apresentarem as suas queixas e fazerem valer os seus direitos mas que são recebidos com a brutalidade de oficiais corruptos e entregues a uma espera de anos, na mais completa pobreza e desesperança. A câmara centra-se nos seus rostos, que gritam as suas histórias de injustiça, nas suas mãos que remexem restos com que subsistem, nos seus corpos curvados e cansados. O autor faz-nos escutar as suas vozes críticas, não dos dirigentes do país que respeitam, mas dos polícias, das autoridades locais e provinciais que os maltratam. O filme conclui com imagens dos festejos de ano novo transmitidos pela televisão estatal CCTV e o contraste com a realidade dos peticionários não poderia ser mais chocante.
Tal como a curta do realizador a que aludi antes, Year By Year (2005) dá a conhecer um realizador cujo cinema revela uma boa dose de activismo. Captando o real de forma despojada, sem máscaras, ele confronta o espectador com realidades que se alguns preferem esconder.

27.10.08

Notas do Doc #3


The Red Race, de Chao Gan

Não poderia haver timing melhor para a exibição deste documentário. The Red Race (2008) acompanha os treinos duríssimos de um grupo de crianças numa escola de ginástica em Xangai, meninos e meninas inscritos por encarregados de educação por vezes cegamente inebriados com o sonho olímpico. As crianças deixam-se envolver, sacrificando-se por um objectivo cujo significado talvez nem alcancem. Um filme que nos mostra a realidade duríssima dos treinos atléticos na China e nos faz interrogar sobre os preços, talvez demasiado altos, que se pagam em nome de uma medalha.



We, de Huang Wenhai

Tal como Red Race, We (2008) foi exibido no âmbito da Competição Internacional. Ambos constituem certamente dois dos olhares mais incisivos sobre realidade polémicas da China contemporânea. Em We, o realizador Huang Wenhai acompanha uma série de dissidentes de várias gerações que discutem abertamente a luta pela reforma política. Testemunham a repressão política e religiosa, estabelecendo uma linha de continuidade com as perseguições que alguns viveram no auge do poder de Mao, expõem as suas formas de expressão, de blogues a grupos de estudo, e falam da esperança de democracia na China. Um retrato impressionante e corajoso de pensadores que defendem uma China mais livre e democrática.
Tal como the Red Race, o filme é dedicado àqueles que retrata. E não deixa de ser curioso reflectir no título do filme, onde o autor implicitamente se inclui no grupo das vozes críticas que nos dá a ver e ouvir.

26.10.08

Notas do Doc #2


The Square, de Zhang Yuan

Cinco anos depois, Zhang Yuan percorreu com a sua câmara a praça Tiananmen. Ao longo dos 100 minutos de The Square (1994) vemos a alarmante normalidade de tudo: os vendedores, os turistas, os meninos de escola, os polícias. Como se nada se tivesse passado...
Mas quando, no final, se ouvem as salvas de canhão na visita de um representante estrangeiro, a expressão no rosto dos transeuntes é de uma estranha apreensão. Talvez esteja aí a memória que os cidadãos foram forçados a apagar. Mas que não morreu, como mostra o magnífico A Day to Remember de Liu Wei, de que falarei aqui depois.



Crazy English, de Zhang Yuan

Uma muito curioso abordagem do poder de um só individuo sobre massas imensas de população, Crazy English (1999) segue as sessões de aprendizagem rápida de inglês de Li Yang, uma celebridade chinesa que impressionou o realizador. Em Crazy English vislumbra-se muito mais que o retrato de um self-made man: vê-se a submissão ao ridículo de pessoas de diferentes idades, ocupações e estratos sociais a alguém de competência questionável e com uma mensagem onde não está ausente uma marca política.
Tanto na sessão em que vi The Square como na que vi este filme a sala contou com a presença de Zhang Yuan.



Mum, de Zhang Yuan

Mum (1992) foi o primeiro filme de Zhang Yuan e é uma verdadeira obra-prima. Num preto-e-branco muito escuro mas muito belo, com um ritmo pausado e enquadramentos perfeitos, o autor centra-se no drama pessoal de uma mãe que não sabe como lidar com o seu filho autista. Dividida entre a esperança que ele recupere e seja capaz de falar (de dizer “mãe”) e o medo de sacrificar a sua vida pela do filho, dadas as pressões do marido, do patrão e até dos conhecidos, a sua figura é a de uma magnânima humanidade, em toda a sua força sacrificial e as suas vacilações cruéis.
Obra de ficção cortada por testemunhos reais de mães e de imagens de meninos autistas (a cores), Mum é considerado um filme charneira do início da “6ª Geração” de cineastas chineses.
Foi o melhor filme que vi no DocLisboa deste ano.

25.10.08

Notas do Doc #1


In Public, de Jia Zhang-Ke

Em In Public (2001), curta de cerca de meia hora, Jia Zhang-Ke percorre, como título indica, espaços públicos, neste caso de transportes, captando as pessoas que lá se movimentam. É uma obra quase abstracta, mas uma abstracção do real. O autor limita-se a assistir a pedaços de vida que se desenrolam e essa admiração silenciosa impressiona, mesmo que pessoalmente prefira outras obras mais trabalhadas do autor.



Dong, de Jia Zhang -Ke

Dong (2006) pode ser visto como a outra metade de Still Life – Natureza Morta (2006). Ambos foram filmados nas obras para a barragem das Três Gargantas (embora Dong siga para a Tailândia), mas se Still Life era mais híbrido (ficção com bastante de documental), Dong é um documentário, onde não faltam os depoimentos de um artista Liu Xiaodong que se desloca à região para captar os corpos dos habitantes no seu ambiente quotidiano: apetece dizer, tal como Jia o faz com a câmara de filmar. Foi precisamente essa fusão entre o artista que a câmara capta e o artista por detrás dela que mais me cativou no filme.



The Last Lumberjacks, de Yu Guangyi

The Last Lumberjacks (2006) acompanha um grupo de lenhadores de uma povoação chinesa no seu último Inverno de trabalho no abate de árvores. O realizador segue-os mostrando a sua vida como ela se manifesta: no trabalho, nas refeições, na doença, nas tradições... Documenta-se uma realidade prestes a desaparecer mas sem interferir particularmente na transmissão dessa realidade ao espectador (não há voz off, perguntas, explicações). É um retrato interessante da interacção entre o homem e a natureza, mas o realizador poderia ter potenciado cinematograficamente o dramatismo de algumas cenas.

24.10.08

... e mais mudanças

One of China’s biggest companies will today become the first state-controlled business in the country to join an international agreement to cut greenhouse gas emissions.

Juliette Jowit, “Big Chinese companies join climate group” in Guardian, 24 de Outubro de 2008

23.10.08

Merecida distinção

Hu Jia ganha Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento

21.10.08

Memória


Numa altura em que se debate profusamente a memória histórica e a relação da História com a justiça, recomendo a leitura desta obra extraordinária. Um dos livros mais insuportáveis que li até hoje, mas indubitavelmente um dos mais necessários, que mais uma vez me colocou perante a relevância do papel do investigador/historiador no contributo para impedir a injustiça do esquecimento e lembrar a quem o lê os horrores de um passado que não deve, não pode ser deixado olvidar. Este livro mostrou-me com toda a clareza o quanto é necessário tentar compreender o que parece (é?) incompreensível, pois é preciso saber para impedir que os mesmos actos hediondos (custa pensar que sejam obra de Homens...) sejam repetidos. E sim, é preciso dar às vítimas que ainda vivem uma réstia de justiça.

Hoje, o Times noticia a estreia de um filme que foca as violações de mulheres alemãs pelo Exército Vermelho no pós-guerra. Um tema que, diz-nos o artigo, toca em feridas ainda abertas. Eu pergunto: para quando a coragem de uma grande-produção tratar a “violação de Nanjing”? Quando se recorrerá a esse meio tão poderoso que é o cinema para dar a conhecer ao mundo este hediondo episódio e os casos de heroísmo que nele também ocorreram? Não podemos, de facto, apagar a memória.

Referências:
Iris Chang, The Rape of Nanjing. The Forgotten Holocaust of World War II, USA, Penguin Books, 1998, 290 pp.

20.10.08

Mudanças?

State news agency Xinhua said the temporary arrangement for the games, due to expire on Friday, would become standard practice.
It means journalists can continue to conduct interviews without applying to the authorities for permission.

(...)
In practice foreign reporters have had more freedom to do their work, but have not been completely left alone by the authorities, says the BBC’s Michael Bristow in Beijing.
Certain sensitive areas, such as Tibet, were off limits, and correspondents have continued to be detained by the authorities.

China’s press freedoms extendend” in BBC News, 18 de Outubro de 2008


With the announcement yesterday of the Communist Party’s decision to “transform the entire rural policy”, the reform camp won a victory of enormous significance.
Farmers will not own their land outright - in China, every inch of land belongs to “the people”. But they will have rights, similar to those granted last year to city dwellers, to rent out or sell the plots they lease from local “collectives” under “household responsibility contracts”.
That will free them to link up with other farmers in modern commercial agribusiness co-operatives or to invest the proceeds of land transfers in new businesses. The effect will be to revolutionise Chinese farming and non-farm rural employment, as a market in agricultural land opens up for the first time.

(...)
But the awkward truth is that a “new” countryside will not be “socialist”; if it remains socialist, it will stay resentfully poor.

Rosemary Righter,“The fat lady sings in China’s opera of reform” in Times, 20 de Outubro de 2008

Descobertas

Magically, everything was perfectly preserved by a layer of silt. Raised from the seabed more than a millennium later, the gold cups and bronze mirrors, silver boxes and ewers look as fresh as the day they were created.
(...)
The Belitung wreck is a time capsule that has revolutionised our understanding of two ancient civilisations that fill the airwaves today - China and the Middle East.

Simon Worrall, “The treasure trove making waves” in BBC News, 18 de Outubro de 2008

19.10.08

Aimee

Este post nada tem a ver com a China, mas não podia deixar de referir aqui o regresso a Portugal da minha musa triste da música, Aimee Mann, pouco mais de um ano após o primeiro concerto em Lisboa. Há muitos anos que é marcante ouvi-la, e ao vivo todo esse tumulto interior vem misturado com uma estranha felicidade por estar ali...
Deixo aqui algumas imagens.


Aimee Mann, Coliseu dos Recreios, Julho 2007

Aimee Mann, Coliseu dos Recreios, Outubro 2008

Vídeo «Red Vines»

Ver vídeo «Save Me»
Ver vídeo «The Great Beyond»

(fotos e vídeos da minha autoria)

#8


Um novo número da Take está já disponível online, e o editorial revela as dificuldades que o projecto está a sofrer neste momento. Vivendo da dedicação voluntária dos seus colaboradores, é natural que se ressinta de alguma ausência de interesse e apoios que poderiam compensar de alguma forma o esforço dos que para lá trabalham.
Pela minha parte, a falta disponibilidade começa a espartilhar-me também nesta colaboração, mas este foi um número em que me empenhei particularmente, talvez pela oportunidade de fazer a cobertura do ciclo «O Despertar da China» que decorreu no Museu do Oriente.
O futuro anuncia-se com muitas incertezas. Mas por agora aí está o #8, com artigos de peso como a cobertura do MOTELx, uma entrevista ao realizador espanhol Mario Camus ou o destaque dado ao recentemente estreado Burn After Reading dos irmãos Coen.

Textos meus nesta edição:
- Crítica: A Promessa
- Despedida Paul Newman (artigo colectivo): Hud
- Reportagem: Os Rostos Esquecidos de um País em Mutação – Ciclo “O Despertar da China” no Museu do Oriente
- Há 80 Anos: October, de Sergei Eisenstein
- Ciclo da Cinemateca (com Pedro Soares): Retrospectivas Manoel de Oliveira e John Carpenter
- Cinema em Casa: Três Tempos, de Hou Hsiao Hsien

18.10.08

Cine Eco 2008

Começa hoje a 14ª edição do Cine Eco - Festival de Cinema e Vídeo de Ambiente da Serra da Estrela. Além das secções de competição, o festival comporta várias sessões paralelas, onde poderão ser vistos (ou revistos) filmes como Sedução, Conspiração, de Ang Lee ou O Sabor da Melancia do importante nome do cinema de Taiwan Tsai Ming-liang.
Tendo estado neste festival há dois anos como júri da juventude, não posso deixar de recomendar uma passagem por lá, uma vez que o festival decorre em Seia, em plena paisagem revigorante de uma outonal Serra da Estrela. Além dos filmes haverão concertos e, para quem se demorar, a oportunidade de descobrir as bonitas terras vizinhas.
O festival termina dia 25 de Outubro.

17.10.08

Curso de verão

Algo que gostaria de ter feito...

Designações

In an apparent move to defuse a decades-old ideological debate, China's Vice President Xi Jingpin, who is widely tipped to succeed President Hu Jintao, has proclaimed that the Chinese Communist Party (CCP) has turned itself from a “revolutionary party” into the “ruling party”.
(...)
Analysts say Xi certainly wasn't just offering his personal opinion, but announcing a policy decision made by the top CCP leadership. This signals - after 30 years of economic reforms and openness - the CCP is finally willing to declare its departure from revolution.

Wu Zhong, “‘Red capitalists’ unravel the party line’” in Asia Times, 17 de Outubro de 2008

16.10.08

Macao


This is Macao, a fabulous speck on the earth’s surface, just off the south coast of China, a 35-mile boat trip from Hong Kong. It is an ancient Portuguese colony, quaint and bizarre. The crossroads of the Far East. Its population a mixture of all races and nationalities, mostly Chinese. Macao, often called the Monte Carlo of the Orient, has two faces, one calm and open, the other veiled and secret. Here millions in gold and diamonds change hands. Some across the gambling tables, some mysteriously in the night.

Frases introdutórias do filme Macao (1952), de Josef von Sternberg (e Nicholas Ray, não creditado)

15.10.08

Novo banner

Como podem ver, o banner deste blogue foi alterado para algo bem mais bonito!
A autoria deste novo artístico cabeçalho (e avatar) pertence ao meu amigo Rui Guerra, cujo trabalho de designer gráfico podem apreciar, por exemplo, na sua página pessoal.

(Obrigada!)

DocLisboa começa amanhã


aqui tenha aludido à secção «Made in China» do Festival DocLisboa mas volto a relembrá-la, até porque o evento começa amanhã. Trata-se de uma oportunidade excelente para descobrir algum do melhor documentarismo chinês.
A programação pode ser consultada na página do DocLisboa e na do Museu do Oriente (para as sessões que decorrerão no seu auditório).
O cartaz promocional do festival foi concebido a partir da pintura The Execution do artista chinês Yue Minjun.

1.10.08

Pausa

Este blogue vai entrar num período de actividade reduzida e pausas recorrentes devido a um excesso de falta de tempo da minha parte. Mas a China está sempre presente nos meus dias, de uma maneira ou de outra, por isso esta decisão não equivale, para já, a um adeus definitivo.
Até breve.

(ainda) Sedução, Conspiração


Wong Chia Chi (Tang Wei) é uma estudante que descobre um talento especial para a representação no grupo de teatro “de esquerda” da universidade. Depressa essa habilidade será aproveitada num plano do grupo de estudantes para assassinarem um funcionário chinês, o senhor Yee (Tony Leung) que colabora com os ocupantes japoneses. Assumindo a identidade de uma senhora da alta sociedade, Mak Tai Tai, ela vai seduzir Yee mas o improvável acontece: o amor acontece.

Sete anos depois de O Tigre e o Dragão, o realizador Ang Lee voltou à China para transpor para o grande ecrã um pequeno conto de Eileen Chang. O resultado é um filme de três horas que é um trabalho de perfeição total, a cada plano, por um cineasta em plena maturidade. Recriando a Xangai ocupada dos anos quarenta, Ang Lee filma uma obra sombria e fascinante onde a descoberta do amor é mostrada com uma subtileza notável. Subtileza sim, mesmo nas cenas de sexo explícito que tanto deram que falar. A relação da senhora Mak e do senhor Yee é um jogo de manipulações que se desenrola perante os nossos olhos até que, por breves instantes, ambos ficam desarmados perante uma confirmação de segundos.
O conhecido actor Tony Leung tem uma prestação notável na sua aparente frieza e agressividade e a estreante Tang Wei revela-se uma promissora actriz, transmitindo de forma notável as metamorfoses da sua personagem. Como secundários a notar encontramos Joan Chen e Wang Lee-Hom. A elegância e a sobriedade das interpretações prestam de certa forma homenagem ao cinema clássico de Hollywood, homenagem essa confirmada em algumas cenas que em que a protagonista vai ao cinema.
Mais-valias importantes neste trabalho são a fotografia de Rodrigo Prieto, essencial na criação de uma atmosfera “noir” a cores, e a partitura de Alexandre Desplat, compositor que já se inspirara na China para a banda sonora de O Véu Pintado.
Sedução, Conspiração surge-nos, até agora, como o melhor filme estreado em Portugal em 2008. Assombroso.

Texto publicado na revista Take, nº7, Setembro 2008, p.59.