A trilogia Infernal Affairs (2002, 2003) é um dos marcos do cinema de Hong Kong dos últimos anos. A história de dois infiltrados: um polícia (Yan) infiltrado numa tríade e um informador dessa mesma tríada na polícia (Ming) foi de tal forma bem trabalhada que Martin Scorsese resolveu adaptá-la no oscarizado Entre Inimigos (2006). Sem retirar mérito cinematográfico ao filme de Scorsese, o original, realizado por Andrew Lau e Alan Mak, é algo superior.
O primeiro filme da trilogia é de um equilíbrio narrativo total, tudo parece desenrolar-se ao ritmo certo, com personagens de uma densidade bem trabalhada – não só Yan e Ming como também o Superintendente Wong – a que não será alheia a excelência dos actores Tony Leung, Andy Lau e Anthony Wong. A montagem perfeita e o know-how técnico que a cinematografia de Hong Kong evidencia em filmes do género estão aqui em estado de graça. Infernal Affairs é, diria, um thriller paradigmático, um dos melhores exemplos do género da história do cinema.
O segundo filme perde alguma força, talvez pela mudança dos actores que dão vida aos protagonistas (Edison Chen e Shawn Yue), aqui mais novos. Talvez por isso esta prequela seja dominada pela figura de Anthony Wong, que claramente se sobrepõe a Yan e Ming. Todavia, formalmente a qualidade mantém-se e o argumento não se dispersa tanto como na terceira parte. Nesta, são alternadas duas narrativas: uma passada pouco depois do final do primeiro filme e outra onde se recupera em flashbacks a personagem de Yan. No entanto, a figura chave aqui é o Inspector Leung (Leon Lai), personagem que ganha um relevo improvável. Infernal Affairs III não só não funciona sem os outros dois filmes como constitui um acrescento desnecessário a eles. Não sendo um mau filme, é todavia claramente inferior aos restantes dois.
A luz e os espaços são integrados no filme de uma forma magistral. Sejam os espaços amplos e fechados do edifício policial, os telhados dos prédios, o templo budista, a praia na Tailândia, a loja de aparelhagens. Tudo parece ter uma vida própria e, simultaneamente, estar tão sob controlo como qualquer filmagem em estúdio. Os tons baços, com um predomínio de azuis e cinzentos, sobretudo no primeiro filme, acentuam a aura de enigma e desconfiança que alimenta a trama. O cuidado plástico não surpreende, dado o background de um dos realizadores, Andrew Lau, que foi director de fotografia de dois filmes de Wong Kar-Wai, autor cujos filmes são, entre outras coisas, notáveis pela qualidade da sua fotografia.
Além de toda a acção propriamente dita, um dos aspectos que considero mais curiosos da trilogia Infernal Affairs é a visão (crítica) da passagem de Hong Kong para a administração chinesa que é dada nas entrelinhas.
Em suma, desiguais mas, de alguma forma, complementares, os três filmes são marcos do cinema de acção dos últimos anos e merecem um visionamento. Ou mais.

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